sábado, 14 de janeiro de 2023

Diz que fui por aí

 

Sem viagens, Cristóvão Colombo não chegaria à América, Charles Darwin não teria escrito a Origem das Espécies, Carmem Miranda não cantaria em Holloywood,  Pelé também não teria feito mil gols, e eu não teria comido sushi em um restaurante de Riga, ouvindo ao mesmo tempo  funk brasileiro e propaganda de um concerto de André Rieu. Se o ser humano não se aventurasse por outros mundos, e não tivesse a curiosidade pra criar, talvez Florianópolis fosse uma ilha inexplorada, nem manezinhos haveria. Não haveria pontes, e por lá também não sobrevoariam aviões, muito menos bruxas em suas vassouras voadoras. Sem quebra de fronteiras não comeríamos strogonoff, tampouco beberíamos cerveja ou vinho. Enfim, o mundo seria muito sem graça sem o “tudo junto e misturado”.

Já escrevi algo sobre isso antes: quanto menos grades, portões, fronteiras, melhor. Quanto mais quebras de padrões, melhor. Bom sair do protocolo também. Experiência é para viver. E experiência vivida leva a respeito ao meio, ao outro, a uma realidade diferente.  E nos enriquece, nos fortalecendo também. Aprendemos a viver com os opostos. E melhor ainda é vivenciar situações pra depois escolher uma delas, não nos amedrontar. Mas o fato é que nem todos têm essa sorte, quantas vezes as pessoas são obrigadas a viver uma vida toda, e a morrerem também no mesmo lugar? Há, no entanto, quem possa escolher e não usa esse poder pra sair da zona de conforto e viver outras situações diversas. Nós saímos do calor de Florianópolis pro frio de Riga, Letônia pra estar com a filha e conhecer algo novo, e muitas pessoas me disseram: “Frio, nem pensar, odeio”. Mas não vivenciar momentos não é uma questão de gosto, é como não gostar de algo sem nunca ter comido. Enfim, se já passou pelo frio, é louvável, se não o viveu é medo. Já pensou se todos morassem só em desertos? Ou só nos árticos? Eu voltarei a minha terra natal, mas quantos indivíduos têm essa opção? Nossos filhos e filhas precisam voar, como voaram tantos homens e mulheres que se tornaram cidadãos do mundo. Eles precisam sair de casa na certeza de que a porta estará aberta caso possam e queiram retornar. Fato é que as pessoas vivem bem, outras mal, por aqui e por aí. Aqui crianças, jovens, idosos fazem tudo que qualquer outro indivíduo faz em qualquer lugar do mundo.

Sempre tive o sonho de sair por aí, de ultrapassar fronteiras, nunca me contentei em estar em apenas num lugar. E não existe aprendizado maior do que pisar em outras terras, conhecer outras gentes, outras culturas, sair da zona de conforto e ter que se virar, e aceitar o erro como algo construtivo, falando outra língua além da materna, por exemplo. Ir da teoria à prática. Aprender a (sobre)viver no frio (ou no calor) excessivo, isso é a vida, pois ora ela esfria, ora ela aquece, mas o mundo nos abraça, de uma forma ou de outra.  Claro que sinto falta de meu país, mas do jeito que ele se encontra tenho medo do retorno, pois muito pior que o frio é a violência, o desrespeito, a insegurança.

Os flocos de neve que conhecia eram os pedaços de algodão que minha mãe colocava pra enfeitar as árvores de natal, ou ainda as cenas de comédias românticas, ou de filmes de Papai Noel, por isso nunca associei a neve a um congelador. Após dias encarando temperaturas em torno de -16, aprendi a respeitar o frio abaixo de zero, encarando-o como um desafio, como tantos na vida. Reconheço ainda mais minha pequenez nesse mundão, e o quão ilimitado é o aprendizado, pois há sempre um canto a conhecer, há sempre uma língua a aprender, há sempre uma comida a provar, há sempre uma fronteira a ultrapassar. Encontrar um equilíbrio entre o ser brasileiro e o viver, mesmo que temporariamente, nos países bálticos, é se colocar à prova e ter a certeza de que retornaremos mais fortes e mais tolerantes.

Por ora, se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, levando meu computador embaixo do braço.

 

Riga, 14 de janeiro de 2023!

 

 

 

 

 

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Hora de retrospectiva

 

Retornamos a Riga. Antes de dormir vi pela tevê do hostel um pouco do que já havia visto pelas redes sociais. Penso no meu país, na minha família, nos amigos, em meus alunos. Nenhuma novidade, já sabíamos que isso ocorreria. Um conhecido em Riga indignado disse que dará um gelo na família, apoiadora dos atos de 8 de janeiro de 2023 no Brasil. No facebook internautas voltam a se atacar, nem se distanciou o natal e as famílias também já travam novas brigas. 

Relembro 2014. Pela tevê assisti a cidadãos de bem de verde e amarelo mandarem a Presidenta tomar no c... Ninguém foi preso. Anos antes, um certo deputado disse a uma deputada que ela não merecia ser estuprada. E quem não se lembra dos adesivos em carros simulando o estupro da Presidenta? Também ninguém foi responsabilizado. Cidadãos de bem passaram a idealizar novamente a fala do mesmo deputado que, ao brincar com o “imbrincável”, dessa vez resolveu homenagear o Ustra, um dos maiores torturadores da história do país. E as notícias falsas passaram a se reproduzir como baratas: mamadeira de piroca, kit gay , ideologia de gênero. Quem não se lembra da placa em homenagem a Marielle Franco destruída por dois políticos que buscavam restaurar a ordem? E assim internautas doutoraram-se em todas as áreas do conhecimento, na linguística, por exemplo, questionaram inclusive o gênero das palavras: “presidenta”, como assim?  Professores foram acusados de doutrinadores e, do nada,  passamos a viver uma ameaça comunista, e a ser amedrontados pela ideia do país virar uma Venezuela. E até Paulo Freire foi questionado por quem sequer leu uma linha da “Educação do oprimido”. E foi assim que defensores da família, da pátria e de Deus fantasiaram-se com a bandeira do país.

Consolidou-se de vez, nos últimos anos, um país divido. E nenhuma classe escapou à loucura que se fortaleceu com a eleição daquele deputado que há anos já deveria ter sido preso por instigar a violência, fazer arminha e debochar da democracia. Apesar das muitas resistências, aceitamos o resultado das urnas convictos de que o estrago seria enorme. E foi, seguido de uma pandemia, que chegou pra mostrar nossa fragilidade e nos desafiar ainda mais.  E enquanto o mundo reforçava com urgência pesquisas pra desenvolver vacinas contra a COVID,  o presidente do país reforçava o negacionismo, questionava a Organização das Nações Unidas. E desgovernou fazendo da pandemia uma ameaça comunista, afinal, era só uma gripezinha, e quem tomasse a vacina viraria jacaré. E até hoje tem quem acredite estar com algum chip instalado em seu corpo. Chegou a vez das universidades serem alvejadas, e os cidadãos de bem passaram a questionar cientistas e médicos do mundo inteiro, recusaram-se, como o mito deles, a usar máscaras e a tomar a vacina. E os grupos de whats app tornaram-se um inferno, bombardeando os usuários com mensagens aterrorizadoras. Soube-se de um certo escritório de produção de notícias falsas instalado no próprio governo, mas novamente ninguém foi preso, ou responsabilizado. E o país entrou em um período de instabilidade, tornando-se um péssimo exemplo de democracia. Resultado: quase 700.000 brasileiros mortos por COVID, somados às muitas vítimas de balas perdidas, racismo e feminicídio.

E tudo em nome da pátria, da família, de Deus. E tudo contra a corrupção  que, como se sabe, não deixou de existir durante o governo do falso messias, salvador apenas de sua família, não foi à toa que aprovou o sigilo de 100 anos. Felizmente o mundo gira, e como ninguém soltou a mão de ninguém, não deixamos barato. Se recebíamos uma notícia falsa, devolvíamos duas provando a farsa. Alguns aliados do governo, apoiadores do golpe de 2015, também perceberam o barco furado em que estavam se metendo, e um movimento forte e resistente passou a lutar pela verdade. Uniram-se forças! Levantamos do caos pra reencontrar o país que nos foi tirado lentamente. E reelegemos o único severino que poderá, unindo forças de muitos lados, reerguer esta nação em frangalhos. Mas os cidadãos mostraram-se ainda mais intolerantes, discordando do resultado das eleições e, mesmo sem provas, acusam o atual Presidente de ladrão, sendo que seu único problema foi desconstruir a lógica do capitalismo selvagem: humanizou o país, proporcionando direitos iguais a homens e mulheres pobres e negros, fortaleceu o SUS e as universidades, investiu em moradia, aliou-se a grandes homens que fizeram deste país uma nação a caminho do desenvolvimento, sendo ovacionado mundo afora. Mas a ameaça comunista... aff! Pela primeira vez na história nasceu o pobre de direita, que se aliou a quem o escraviza.

E, apesar de voltarmos a esperançar, o ar esta semana voltou a pesar. Feridas estão expostas. Há uma ameaça constante de um golpe, isso que o ano acabou de começar. Triste ver de longe meu país ainda tão dividido. Parecemos voltar à estaca zero. Fato é que quanto mais viajamos, mais reconhecemos o potencial do Brasil, e de nosso povo também, fatos, no entanto, mostram-nos o quanto somos pequenos e frágeis, pois muitas vezes não conseguimos resolver a fúria da natureza, basta ver as enchentes que ocorreram há pouco no país, basta se lembrar da pandemia.  Aqui no leste europeu, a neve intensa faz estragos, no Brasil, o calor excessivo também se mostra às vezes destruidor. Por ora, só o que penso é no país armado que fica pra trás, mas que precisa se amar como nação, unindo forças, deixando a moralidade de lado, sempre se lembrando dos direitos conquistados em 1988.

Daqui a uma semana voltaremos ao Brasil na certeza de que construiremos uma nação mais humana, certos de que o patriotismo cego só serve pra desfile cívico, ou ainda, pra fascistas imporem seus muitos preconceitos e manterem a hipocrisia, vestidos com uma farda impecável e com uma arma em punho. O que conta mesmo na construção de um país de primeiro mundo são as três refeições na casa de cada brasileiro, o acesso à educação de qualidade, à saúde, à moradia (e blábláblá), assim, como o respeito às instituições democráticas, às mulheres e negros que, a duras penas, construíram e formaram lindamente  este país miscigenado, colorido, livre.

Precisamos de um país que não puna apenas pobres, negros, trabalhadores. Precisamos de um país que dê exemplos e que coloque na cadeia quem realmente lá deveria estar. Precisamos, no país, de instituições que nos representem. Não precisamos de salvadores da pátria, nós é que precisamos também fazer nossa parte. Precisamos começar, já passou da hora.

Riga, 9 de janeiro de 2023.


 

 


domingo, 1 de janeiro de 2023

Esperançar

     Após seis anos de muita instabilidade emocional, chegamos em 2023 confiantes e esperançosos, pois conseguimos virar duas páginas da história do Brasil: do golpe, seguida da eleição de 2018. Há, no entanto, uma sementinha de discórdia e ódio que, uma vez plantada e regada, pode crescer e se transformar em um perigoso pasto de erva daninha. É fato, apesar da conquista, não será fácil retomar conquistas que foram quase zeradas durante o desgoverno. Sem avanços na área social, o país retrocedeu a passos largos. Precisamos sonhar com os pés no chão, afinal alianças foram feitas e ainda estaremos rodeados de intolerantes.

    E sabemos que não é só no Brasil. Passamos nossa noite de virada em Riga, Letônia, e aqui a tensão tem nome: a Guerra da Ucrânia e Rússia que se prolonga. Logo, a divisão (que sempre houve, só estava adormecida) entre pessoas mais conservadoras e outras mais progressistas não está só no Brasil. Na França, na Itália, na Inglaterra, para não ficar só na América Latina, comunistas e capitalistas como são equivocamente estereotipados, travam outras guerras que circulam por todos os espaços. No Brasil víamos a bandeira verde e amarela para tudo quanto era canto, aqui se vê a bandeira da Ucrânia. 

    Assim, a neve que aqui cai como algodão, ao alcançar o chão torna-se dura, torna-se pedra. E no Brasil não é diferente, pois o sol que brilha pode provocar a morte. É como se a natureza, e só ela, conseguisse expressar o que todos sentimos e, o pior, como somos. Somos desequilíbrio e instabilidade. Somos teimosia e interesse. E somos egoísmo, pois acabamos reduzindo o mundo a nosso umbigo. Somos uma abstração que se materializa e se transforma em tempestades.

    Mas nós, felizmente, pensamos, e temos a capacidade de reavaliar nossos passos e mudar. Que assim façamos em 2023, que pensemos mais no coletivo. Bom lembrar que quem planta a semente torna-se menor que sua plantação. A solução é possível que seja plantar mais flores, mais árvores frutíferas, só assim para amenizar o efeito dessas ervas que, por ora, estarão adormecidas, mas que podem se empoderar, como ocorreu nos últimos anos, tudo vai depender do clima, e do respeito às intempéries que são inevitáveis.

    Hoje chove em Riga, mas a temperatura está suportável, em torno de 7 graus positivos. Pela janela vejo o gelo que, aos poucos, desaparece. No Brasil, em Brasília o tempo também parece mais agradável, 19 graus. É dia de posse do novo e velho Presidente Lula. Respiro fundo e sinto um alívio. Vejo pelas redes sociais que muitos amigos unem-se a outros amigos que vestem a camisa vermelha dos trabalhadores, e penso naquela verde e amarela (que ainda me recuso a usar) que representa o todo, um país continente que precisa unir forças para não se dividir ainda mais. Neste 1º de janeiro de 2023, vesti preto, porque é necessário ressignificar as cores.  E resta-nos esperançar, conscientes de que sem ação a esperança não deixa de ser um sonho.

Um excelente e colorido 2023!

 

 Riga, 1 de janeiro de 2023.

domingo, 20 de novembro de 2022

Sobre Consciência



Procuro uma receita  de torta salgada, que há anos não fazia, para levar para o sarau Tertúlia dos Antúrios, dos nossos amigos Fredy e Elinete. Além dos ovos e do leite, a receita sugere que acrescente 13 colheres de trigo. Uma ansiedade toma conta do momento, afinal, preciso levar também algo novo para ler que seja especial para este dia que antecede o Dia da Consciência Negra, e esse número me inspira. 

Volto ao 13 e a seus múltiplos significados: o 3 em 1, a Santíssima Trindade, o partido dos trabalhadores e o novo governo que se iniciará em 2023 e que, de mãos dadas a tantos outros partidos, têm a luta contra o racismo como bandeira,  e, consequentemente, a expansão da Consciência Negra a todos os dias do ano. Relembro o 13 de maio de 1988 e desembarco neste novembro de 2022, que antecede o Dia da Consciência Negra, data de morte de Zumbi, carregada de expectativa, mas ainda invadida pelos versos questionadores de Castro Alves: por onde anda o Deus dos desgraçados?

Há quem questione o dia da Consciência Negra justificando que nenhum branco sai por aí levantando a bandeira 100% branco, por exemplo. E é justamente por isso que ele se faz tão necessário, pois esse dia é mais para os que se enxergam brancos do que os negros, é um dia para que nós, brasileiros, percebamos que este país nada seria sem as contribuições vindas da África, e que somos um povo miscigenado. Ponto. É isso. Somos um nós colorido e diversificado, e este país não seria o que é sem uma história de dor, escravidão e estupro que nos assombra, mas a qual não podemos negar. Somos filhos e filhas da violência racial, em especial contra negros e indígenas. Todas as vidas importam, mas que país mata tantos cidadãos negros?

E gostaria de destacar aqui o Consciência tranquila de Cruz e Sousa. É uma prosa poética (ou poema em prosa) pouco lida e pouco conhecida, texto de difícil leitura não só pela estrutura, mas pela abordagem do tema: a memória de um senhor de escravos que, à beira da morte, lembra-se, com a consciência tranquila, de atos que cometeu: o negro de cem anos, morfético a quem arrancou os dois olhos, a negra mãe que morreu louca abraçada ao filho, os negros que mandou enforcar, os negros que de desespero e aflição rasgaram o próprio ventre, a negra grávida que, de ciúme, mandou chicotear. E ele se questiona: “Remorso? De quê?”. E aterrissando com os dois pés nesta segunda década do século XXI questiono: será que sente remorso o policial que sufocou George Floyd? Sentem remorsos os policiais rodoviários que mataram Genivaldo? E da morte de Kathlen e seu bebê, será que alguém tem remorso?

A resposta está justamente na palavra consciência: 1. sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior, 2. sentido ou percepção que o ser humano possui do que é moralmente certo ou errado em atos e motivos individuais. Ou seja, falta ao agressor reconhecer-se parte dessa parcela da população discriminada há séculos, tenha ele o sobrenome que tiver, seja ele de onde for, pouco importa. More ele na quebrada, ou no asfalto.  E mais uma pergunta surge: por quê? Como cidadãos que se dizem cristãos mantêm-se sem remorso ao cometer atos tão cruéis? E a resposta é, obviamente, a falta de educação no sentido mais profundo e amplo da palavra. Ninguém nasce racista. O brasileiro precisa reconhecer-se um miscigenado, precisa entender que, apesar do sobrenome às vezes europeu, carrega no sangue o continente africano. E o complexo de inferioridade se consolida quando o brasileiro se envergonha de ser o que é, apagando uma história que, apesar de triste, trouxe-lhe uma cultura inigualável. O brasileiro precisa se orgulhar da arte que faz, do sincretismo religioso que o forma, jamais o negar,  enxergar-se belo nos traços que o denunciam ora isso ora aquilo, ora um mistura bem misturada. 

24 de novembro é dia do nascimento do poeta Cruz e Sousa, tachado de ser um negro de alma branca, ou ainda de ser um negro que queria ser branco. Um dia após a morte de Zumbi, a história desses dois grandes homens negros nos faz questionar ainda mais os últimos anos de retrocesso em que vivemos, e por isso reforço os dias 20 e 24 de novembro, marcos de morte e nascimento desses dois homens negros que, além de exemplificarem a dor de toda uma existência, fortalecem uma luta que deve ser de todos nós cidadãos brasileiros. 

São José da Terra Firme, 21 de novembro de 2022.

sábado, 12 de novembro de 2022

Sobre escolhas e pertencimento

 

Saí da clínica agradecida. Minha mãe não chegou à idade que tenho hoje. E por isso sempre digo às amigas que aniversariar é um presente, não um fardo. Quantas pessoas gostariam de viver mais para se desculparem dos tropeços dados, ou para fazer o que não fizeram durante uma vida às vezes curta, outras vezes aparentemente longa e pesada demais.

Ao atravessar a Rua Menino Deus, é impossível não me lembrar de meus pais trilhando aquele mesmo caminho. Na esquina, vejo meu pai de sandália de dedo, de calça um pouco mais curta e com uma camisa clara e com um cigarro na mão, conversando com os amigos na venda do Sr. João da Maia. No rosto um sorriso que raramente nos mostrava. Minha mãe está a caminho da feira, vai comprar linguiça Blumenau para o feijão. E a criançada escorrega pelo pastinho do hospital, enquanto pacientes sobem e descem a procura da saúde perdida. A funerária está ali, com caixões na entrada esperando o próximo a partir. Esbarro no Sr Gil Guedes que me pergunta: “Rosaninha, onde vás?”. Rota de pertencimento: recordações de um tempo que, embora passado, está presente todas as vezes que caminho por Florianópolis, minha terra natal. 

Há alguns anos tenho feito o que me dá alegria: tocar pandeiro numa roda de choro, abrir a casa para amigos que me acolhem e me acalantam, viajar para conhecer outros espaços e gentes, escrever e ler para quem me quiser ler e ouvir, sorrir mais e me preocupar menos, cada vez menos, com bens materiais. Hoje eu escolho com quem estar, o que fazer, aonde ir. E tenho prioridades de que não abro mão: comer e beber com os meus é uma delas. De repente sou invadida por uma tristeza ao ouvir a Gal cantando “Força estranha”, e me dou conta de que aquele agudo e aquela afinação eu não terei mais a oportunidade de ver e ouvir ao vivo. Por que não fui ao último show dela em Floripa, por quê? É isso, queridos amigos e queridas amigas, a vida é feita de escolhas, e vale sempre esse clichê que, por ser clichê, não lhe damos a devida importância.

Às 10:30 entro num café para quebrar o desjejum, grata à vida que tenho e às escolhas que fiz, apesar de algumas frustrações. Sento e peço um espresso pequeno e um pãozinho com queijo e tomate. E resolvo escrever este texto que só agora à noite nasce, pois há uma força estranha no ar e eu não posso parar.


quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Presente!


                                                                       Para Rafael, que [não sem dores] pariu a si próprio.

Tirara o espelho do quarto. Nas paredes havia só um suporte para o violão que vez ou outra ele dedilhava. Não ousava cantar. Detestava a própria voz de taquara rachada. Mas ouvia com atenção cada nota, cada acorde tristonho da canção: Será que ela é moça? Será que ela é triste? Será que é o contrário?

A melodia invadia-lhe a alma. Era uma forma de viajar para muito além daquele quarto, muito além daquela casa, muito além daquela vida. A letra o fazia pensar em tudo que pensaram para aquela criança, nas muitas imposições que acabou acatando. O nome Beatriz era só uma delas. Não se via mais Beatriz. Beatriz era só um retrato que aos poucos se apagava.

Era uma jovem tão linda, tão feminina, diziam. Os cabelos longos que lhe cobriam as costas ficaram na lembrança, nas fotos armazenadas no celular. Os seios ainda estavam ali, mas um dia deixariam de existir.  Se ele mesmo nunca se compreendera, como a mãe o compreenderia? Por que não era como as primas? Seria tão mais fácil ser o que esperavam dele.

Beatriz tinha o nome da avó, que fora a mulher mais bonita da cidade. Diziam que teria sido a miss Santa Catarina de 1978 se não preferisse casar‑se. Essa Beatriz morreu no parto da filha Luísa. E, vinte e tantos anos depois, Luísa deu o nome da mãe à filha única.

Enquanto Beatriz crescia, acostumou-se a ouvir que herdara a beleza da avó.  Aos nove anos, venceu um concurso de miss mirim. Os pais passaram a investir nela. Aulas de inglês, dança, teatro, música, passarela, etiqueta. Dois anos de aparelhos dentários, cuidados obsessivos com cabelos, unhas, pele, peso. Queriam-na miss Brasil.

Mas algo aconteceu com a menina. Do nada, Beatriz criou aversão àquilo tudo. Não conseguia mais olhar‑se no espelho. Recusava-se a ser boneca. Não queria maquiagem, nem coroas na cabeça. Preferia o azul ao rosa, tênis a sandálias, calça de agasalho a vestido. Amava esportes. Jogava futebol, vôlei, basquete. Nesses momentos conseguia extravasar.

A mãe e o pai não conseguiam entendê-la. A filha perdera-se deles entre um ano e outro. Virara desconhecida.

Os versos de Chico ecoavam em sua cabeça: Será que é de louça? Será que é de éter? Será que é loucura?

Beatriz pensava mesmo que enlouquecera.

Achando-a deprimida, o pai mandou-a à Disney, que ela odiou. A mãe comprou-lhe roupas novas, mais próximas dos novos gostos dela. A fase difícil da adolescência ia passar, diziam. Mas não passou. Não era fase, era metamorfose.

Não se lembrava de quando exatamente se percebeu outro. Tinha vaga memória de uma discussão com a mãe aos 10 anos. Estavam em uma loja. Queria muito comprar uma roupa e a mãe sequer a deixou provar. Aquilo era roupa de menino.

Quando veio a adolescência, os seios cresceram, o corpo arredondou. E o sangue começou a escorrer-lhe de dentro. Sentia-se violentado.

Encolheu-se! Escondeu-se. Na escola passou a sentar no canto da última fileira. Afastou-se das colegas. Observava ao longo dos anos aqueles corpos se transformarem e se adequarem a um padrão.

Não tinha certeza de nada, nem queria ter. Só sabia que jamais poderia dar o que queriam dele. Não tinha como. Não queria ser a princesa, a Barbie, a filha que um dia o pai levaria ao altar.

Um dia haveria de colocar um espelho no quarto. Ao olhar-se nele, enxergaria o outro que sempre esteve tão distante, mas tão próximo. E conseguiria responder às perguntas na canção: Será que é uma estrela? Será que é mentira? Será que é comédia?

Na última semana de aula do terceiro ano, entrou na sala de aula certo dos próximos passos. Quando a professora chamou Beatriz, ele pôs-se de pé e respondeu:

– Rafael, presente! 


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Além do portão

 Porta, porteira, portal, portão.  A expressão "Além do portão" poderia ser um poético pleonasmo, afinal todo portão deveria levar alguém a extrapolar seu universo. Ele, no entanto, fecha-se mais do que abre. Vive rodeado de medo tendo, como companhia, câmeras que vigiam e protegem. É um símbolo contraditório, pois pode levar ao mundo exterior, ou nos fechar em nossos próprios.

O portão é um controle, quem está dentro, é possível que saia, já quem está fora nem sempre consegue entrar.  É uma esperança de entrada, ou saída. A porta está para casa, como o portão para a rua. Porta leva a diferentes espaços interiores e exteriores, limitados pelo portão, que leva ao mundo, liberta dos limites impostos por um muro. “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu”. Porta e portão reforçam mundos diferentes. Fora do portão há uma luta que se trava consigo mesmo. Há que se sair da zona de conforto, deixar a barra da saia da mãe, o aconchego da família. 

Bom seria uma sociedade sem muros e limitações. Porta sem chave, sem segredo. Portão assemelha-se a celas, grades, cárcere. Ficar para dentro do portão é emparedar-se, isolar-se, limitar-se a tanto metros quadrados que te separam de outros tantos metros quadrados. Às vezes um latifúndio, outras vezes um cubículo.

É preciso ir olhar, viver além do portão, não se monopolizar. A alteridade se constrói do portão para fora. Quem sabe um dia ele seja um objeto de museu: em um passado, muralhas e portais, muros e portões, em um futuro utópico, só um jardim florido unindo na diferença, um comum sendo compartilhado