sábado, 2 de janeiro de 2021

Dejà vu

Sentada em meu jardim, aprimorado durante a pandemia, penso no ano que chegou chegando. Sufocado e rançoso, felizmente já se foi. Demorou-se. Foi lento e atípico, deixando rastros. Chegamos à 3a. década do século XXI esperando mais. Mais empatia. Mais respeito. E menos. Menos racismo. Menos misoginia. Menos desigualdade. Menos egoísmo e desrespeito. 

A cadeira que me abriga parece me pedir cautela. Nada de ficar se balançando como criança. Necessitamos, com urgência, de estabilidade, de um governo que se importe com quem menos tem, com quem mais sofre, com quem mais morre, no individual ou no coletivo. Este Brasil, ainda no novo normal, nasce como uma criança não planejada, mas que terá, com certeza, uma vida tumultuada, seguida de restrições, dores e mortes. Desculpas pelo meu pessimismo, se temos, entretanto, que nos planejar para o ano, é necessário recordar o que passou, manter-nos ligados à história para que não nos frustremos ainda mais. Podemos vestir o branco sim, mas o branco da paz hoje é o de quem está na linha de frente em hospitais tentando salvar vidas. Já o verde da esperança é o da mata que queimou e, ainda, corre riscos, e não são poucos. O vermelho do amor é o sangue derramado de seres ora na cidade, ora na floresta. Balas. Facas. Queimadas. Mulheres, negros, crianças e idosos ainda são as maiores vítimas.

Eu já passei o réveillon em quarto de hospital e em velório, logo, sempre é bom lembrar que não há dias para morrer, nem nascer, há, no entanto, dias para lutar. Enquanto brindávamos a passagem de ano, pessoas buscavam uma cama no hospital. Enquanto comíamos e sorríamos, pacientes eram entubados, alguns não resistiram. E mais uma criança, a Alice, de apenas 6 anos, morreu neste primeiro dia do ano baleada em uma comunidade, Alice não teve oportunidade de conhecer um país das maravilhas. O fato é que quem sobreviver a esta pandemia, terá o réveillon de 2022 para comemorar, enquanto muitos sequer chegarão à páscoa. Sinto muito, leitor e leitora, mas não consigo deixar de pensar nisso. A morte, quando inesperada e prematura, ainda me incomoda muito, não consigo ficar ilesa. Há um vírus que tem nos mostrado o quão somos pequenos, impotentes e vulneráveis. 

Como o cimento pesa mais para quem fica do que para quem vai, ao fazer uma selfie, observo as marcas que os últimos tempos me deixaram. Sem maquiagem, como quase sempre, mas ainda com os cabelos pintados, faço projetos a curto prazo. Se por um lado, aceito as marcas físicas da idade que avança, por outro não sei muito bem o que fazer com algumas dores na alma. Nesta pandemia, envelheci além do tempo. Faltaram-me abraços, beijos, aglomerações com gente querida. O necessário isolamento social me trouxe para uma realidade que respeitei, mas com a qual tenho dificuldades, após longos meses, de me acostumar. Sou da rua, da vida, do tumulto, da praça cheia com os meus levantando bandeira e exigindo respeito.

Como as orquídeas que se agarram a troncos, tento me agarrar ao que tenho: marido, filhos, literatura, música, jardim, só não sei se vou florir neste ano. Só tenho certeza da luta que se trava já, nas primeiras horas de 2021. Como disse o amigo Frederico, não será um ano fácil, não serão poucas as pedras a serem retiradas, tamanho o retrocesso que tivemos nos últimos tempos. Vou continuar com a máscara, com o álcool, evitando saídas e assim como Caetano, vou tentar fazer um acordo com o tempo: "Compositor de destinos/ Tambor de todos os ritmos/ Tempo, tempo, tempo, tempo/ Entro em um acordo contigo".

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

"O sol há de brilhar mais uma vez"

Hoje, dia de eleição, impossível não me lembrar de meu pai e do prazer que ele tinha em votar. Ele acreditava que teríamos um país com salários mais justos e com menos desigualdade social. Votei com convicção, mas não tenho as mesmas esperanças de outrora. Não me vejo com a felicidade e a esperança que meu pai tinha ao escolher alguém que o representasse. Ele valorizava tanto o voto que votou mesmo em uma cadeira de rodas. No final da década de 80, acompanhei o engajamento de meu pai e um sonho realizado: escolher o presidente do país. E não foram poucas as decepções que se seguiram. E da esfera federal à estadual, quando se pensa em Santa Catarina, a desilusão foi ainda maior. Meu pai, um operário, um sindicalista, era MDB, partido que se opunha à ditadura e à conservadora ARENA. Tínhamos nomes de respeito, como Nelson Wedekin, e, no cenário nacional, Ulisses Guimarães. Bons e ilusórios tempos, afinal, aprovamos uma Constituição solidária com objetivos fundamentais de “construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Após algumas conquistas no início deste século, nos últimos anos retrocedemos e fomos surpreendidos por uma parcela grande da população que enaltece os anos de chumbo, colocando a economia acima das causas sociais. Como consequência, (re)nascem os muitos preconceitos que não foram extintos e se fortalece uma direita de extrema. A alegria durou pouco. Vimos aquele partido que parecia nos representar virar do avesso e colocar, por exemplo, um batalhão da PM em cima dos professores que exigiam melhores condições de trabalho e salário. Nem os idosos escaparam do autoritarismo do governador Pedro Ivo, lembra-se dele? Um opositor à ditadura revelou-se um ditador. E o que tivemos depois foi pedreira: Casildo Maldaner, Paulo Afonso, Luiz Henrique da Silveira, entre outros. Recuso-me a falar do Amin. Que pesadelo! E em Florianópolis mantém-se o conservadorismo como bandeira, basta ouvir a propaganda eleitoral. Estou do lado esquerdo, porque ser de esquerda está muito além de ser comunista, petista e balançar uma bandeira vermelha com foice e martelo. Ser de esquerda é ser, verdadeiramente contra injustiças sociais, por isso, não queremos bandido morto, porque o único bandido que morre é o pobre e negro. Ser de esquerda é respeito acima de tudo, inclusive às diversas religiões, afinal, se o Estado é laico, não se pode defender apenas um deus. Ser de esquerda é investir na ciência e em pesquisas, valorizando as universidades que tanto nos beneficiam com a erradicação de doenças, por exemplo. Ser de esquerda é lutar para que se tenha justiça social, que todos os cidadãos tenham direito à vida, à moradia, à lazer, à educação e à cultura. Ser de esquerda é ser livre para pensar e agir. O problema é que a maioria dos políticos brasileiros, por pura vaidade, em uma briga de cão e gato, ou gato e rato, só pensam no poder, outro problema maior ainda é defendermos lados que, bem lá no fundo, pouco têm representado um povo, à margem, que precisa de saneamento básico, não de asfalto; de creche, não de curso de inglês. Quando assumem cargos, políticos em geral só estão do lado do poder, da elite, como há anos nos mostra a história. “Viu-se conservador em política, porque o pai o era, o tio, os amigos da casa, o vigário da paróquia, e ele começou na escola a execrar os liberais.” Tal trecho do livro “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis, reforça como se estrutura a política. Estar à esquerda ou à direita vai muito além da revolução russa, pois já havia oposição no Brasil Império, que estava diretamente ligada ao partido Republicano e aos ideais franceses de igualdade, fraternidade e liberdade. Vale ressaltar, no entanto, que os membros desse partido defendiam interesses de uma elite, apesar de serem contra a escravidão, por exemplo. E ser comuna é estar do lado do povo, simples assim, não necessariamente do lado de Lenin. Ser de esquerda é ser jacobino, é sonhar com uma revolução. Já ser de direita é estar do lado de quem tem o poder, logo, do lado do patrão, do empresário. Ser de direita é manter-se, mesmo sem o ser, um privilegiado, branco, hétero e macho. Ser de direita é defender apenas um deus, é não ter empatia, é proteger a si e a sua família, o resto que se exploda. Ser de direita é ser monarquista, defender um rei, um palácio, uma família real, pois a plebe precisa se esforçar um pouco mais, o governo não pode ficar dando peixe, não é mesmo? E daí você me pergunta se quero viver em Cuba ou na Venezuela. Não, querido amigo, quero viver num país livre e justo, independente de que lado estejamos. Bandeiras não tiram ninguém da miséria e não trazem justiça social, ações sim. Não pretendo ser radical, mas como ser humano não posso estar do lado de um desenvolvimento não-sustentável, do lado de quem desrespeita índios, negros, mulheres e apresenta, como discurso único, em uma pandemia que assola o mundo: “todos vão morrer um dia”. Há, caro leitor, diferença grande em morte matada e morte morrida como já nos disse o Severino de João Cabral de Mello Neto. O domingo finda. As apurações já começaram e um partido de direita parece vencer mais uma vez as eleições em Florianópolis. Por enquanto nada novo, apesar dos sinais de alguma mudança. A vida segue e os bem eleitos já pensam nas eleições de 2022. Se meu pai estivesse aqui ele excomungaria os resultados e talvez dissesse: “Todo povo tem o governo que merece”. “Pera aí, eu não mereço não.” O fato é que meu desânimo, querido leitor, se deve mais ao povo que aos políticos. Ao atravessar a ponte para ir votar eu vi uma cidadã jogando lixo pela janela e também vi um motorista ao celular. Na fila da seção, vi gente que nem sabia qual era sua seção. E não foram poucas pessoas ao meu redor que não votaram porque não tiveram tempo de escolher um candidato. Sem falar daquelas que, na última hora, pegaram um santinho qualquer de um partido para votar, com uma única condição: só não pode ser esquerdista. E para encerrar, um país que leva a sério um processo democrático, como a eleição, um caso de sexo em uma repartição pública levaria um político a perder o cargo e jamais ser reeleito. Triste! O povo teme os candidatos de “esquerda”, que defendem causas sociais, prefere os que fazem do gabinete, um quarto de motel. Será que um dia meus olhos voltarão a brilhar como os de meu pai em frente a uma urna? Eleições de 15 de novembro de 2020.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

“Só quem já morreu na fogueira Sabe o que é ser carvão”

Como manezinhas e catarinenses fomos, durante a semana, enxovalhadas nas redes sociais. Fotos, vídeos e um julgamento, que colocou a vítima no banco de réu, entalaram nossas goelas, restando um nojo coletivo, mas gritamos: “Não existe estupro culposo”. E, por incrível que pareça, nada disso tem me surpreendido, não esperava nada diferente de um povo que, ao colocar certos representantes no poder, institucionalizou a violência, criminalizando movimentos sociais, em especial, o feminismo. Quem não se lembra dos gritos mandando a presidenta Dilma “tomar no...”? Ou dos adesivos para carros, sexualmente ofensivos, vendidos na internet? Já esperava o aumento do feminicídio, do machismo, de mortes por armas de fogo e, o pior, já esperava também um comportamento do judiciário no caso de Mariana Ferrer. Não é novidade que a justiça neste país sempre teve lado e preço, só que antes era algo mais velado, agora está escancarado. Para ilustrar isso, vale uma referência do livro “Boca do Inferno”, de Ana Miranda, que leio esta semana, homens de cabedal “terão suas mentiras para provar que estavam em algum lugar à hora do crime. Têm seus amigos poderosos na Corte e se nada pudermos provar, serão logo perdoados e soltos. Como sempre. Conheces muito bem nossa justiça.” Apesar de hoje vivermos em um país republicano, séculos depois ainda não resolvemos nossos problemas mais graves do período colonial, o estupro é só um deles. Por conta disso, alguns estarrecimentos nas redes não me comovem, muito pelo contrário, me enojam, pois avisos não faltaram, preferiram acreditar em fake News e aderir ao negacionismo científico. Agora não faltarão consequências, pois “quem planta, colhe”, já dizia minha mãe. O fato é que não nos perdoam por ser hoje maioria nas universidades públicas, não nos perdoam quando pensamos, escrevemos, denunciamos e somos quem somos. Não nos perdoam quando chefiamos escolas, hospitais, repartições públicas. Não nos perdoam por não aceitar cantadas e dizer não. Culpam nossas saias, nossos vestidos e batons vermelhos, culpam-nos até por nosso sorriso. Fingem se compadecer de nosso sangue que escorre quando somos arrastadas em vias públicas, esfaqueadas, baleadas, pois ainda nos querem santas, imaculadas e, obviamente, caladas. O mais triste é saber de mulheres que defendem os tais “cidadãos” que reforçam o machismo e que legislam sobre nossos corpos. Abrir a perna, ou morrer? Morra, desgraçada! Uma a menos. Retorno à Ana Miranda: “Uma mulher honrada não deve ir à rua a não ser para seu batismo, casamento e enterro”. Perceptível a semelhança entre o Brasil de hoje e a colônia portuguesa do século XVII, mas há uma grande e fundamental diferença: vamos às ruas sim, vamos aonde quisermos ir, e vamos gritar, porque não aceitamos mais intimidações. Domingo, conversando sobre política com uma amiga, ela afirmou que o prefeito, candidato à reeleição, perderia pontos nas próximas pesquisas. Eu discordei dela e disse que aconteceria exatamente o contrário, que ele subiria. Lógica simples: a culpa é da mulher, sempre, esse é o raciocínio de grande parcela de brasileiros. Este país, que nasceu do estupro de ideias, culturas e mulheres, mantém-se em todos os lugares, por isso ainda somos objetificadas, até quando? Apesar de alguns retrocessos, já temos um caminho a percorrer, um deles é elegendo mais mulheres que nos representem. Além disso, faz-se necessário escancarar a hipocrisia que tanto nos incomoda, em especial quando vemos postagens de pessoas que, na teoria são contra o estupro, mas atrás de mesas têm usado o poder para fazer valer um instinto animal. Já nos reduziram a bruxas, já nos criminalizaram como Medusas, mas como tão bem disse Rita Lee: “Só quem já morreu na fogueira Sabe o que é ser carvão”, resistiremos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Nada a comemorar.

    Mais um dia 15 de outubro e, antes mesmo dele chegar, já via postagens nas redes sociais enaltecendo a profissão de professor. Há algumas semanas, no entanto, esse profissional era tachado de vagabundo por não querer trabalhar e, há alguns anos, era menosprezado e ameaçado, um doutrinador. De doutrinador a vagabundo, alguns insistem ainda em santificá-lo. Cansa, gente! Não que eu não queira ser parabenizada, todos nós gostamos de um mimo, mas não tem sido fácil e não vou, como dizia minha mãe, “colocar panos quentes”. 
    A situação do professor é muito parecida com a de uma mulher vítima de violência, apanha, apanha e apanha, depois aceita o parceiro com o buquê de flores no dia do aniversário. Confesso: tem me faltado romantismo. Mil desculpas, queridos companheiros e queridas companheiras de trabalho, mas também acho uma chatice essas postagens apelativas que reforçam que nossa profissão é a mais importante do planeta. Não, não é. Hoje talvez seja a de ambientalista. Daí vem você com a historinha: “mas quem ensina o ambientalista?” Menos, ambientalistas ensinam ambientalistas, engenheiros ensinam engenheiros. Sendo bem sincera, só a de alfabetizador ensina todo mundo. Simples. Na verdade, não existe uma profissão mais importante que outra, pois ninguém ensina sozinho. Ser professor é um trabalho em equipe, interdisciplinar, precisa ir além da sala de aula e envolver a família e a sociedade. Caso contrário, é um fracasso. Não se iludam, ser professor é um estado, não caiam na armadilha da meritocracia, não aceitem um altar, afinal, assumam a sala de aula. Quando tentam valorar o professor, ora o coisificam, ora o santificam e, por isso, a profissão e o profissional de sala de aula (não o de educação) não é levado a sério. 
     Uma grande maioria das pessoas acredita que professor vive de ar e de amor. Um dia, na saída de um restaurante, um conhecido me falou que, na próxima reencarnação, seria professor, para se aposentar mais cedo e trabalhar menos. Tive vontade de avançar no pescoço da criatura, mas me contive e nem me lembro do que falei, nessas horas perco o filtro. E se antes da pandemia já havia, nas redes sociais, muitos especialistas em linguística, cientistas gabaritados e juízes, de beca e martelo na mão, além de escritores, obviamente, neste período de quase retorno, a situação se agrava, porque pais e mães descobriram, em casa, tendo que acompanhar seus filhos nas duras aulas on-line, que ser professor e professora não é para qualquer um. Descobriram que nem filhos e filhas não são santos, muito menos seus professores e professoras. Sentem na pele as muitas dificuldades que envolvem a educação em um país que só lhe dá a devida atenção em período eleitoral. Por isso que hoje como não posso andar tranquilamente por aí, não vou ter vergonha de ser feliz e, como professora e educadora há muitos anos na luta, permanecerei consciente de que rosas a gente planta e respeito se conquista. 
     Enfim, no bairro em que moro há umas dez igrejas e apenas uma escola. Há lojas de tudo, mas nenhuma livraria. Este é o Brasil que acredita em milagres, não acredita na educação, sonha em ganhar na trimania, ou na megasena, ir para a Disney assistir ao falso Mickey Mouse. Podem me chamar de amarga, sem problemas. Um país laico, em que um único deus está acima de todos está fadado à miséria educacional. Não temos o que comemorar.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Teatro do cotidiano

Que o homem gosta de espetáculo, isso não é novidade. Parece, às vezes, que nada mudou – da Grécia Antiga ao século XXI ainda acontecem fatos tão escabrosos quanto a luta de gladiadores: luta de MMA e farra do boi são alguns exemplos do quanto o indivíduo aprecia o sofrimento do outro. Há algumas semanas, a caminho de casa, eu e meu marido presenciamos uma cena digna de uma tragicomédia: um homem ameaçava se jogar de um edifício. Fiquei, a princípio, assustada, sem certezas. Deduzi o possível fato ao ver carros da PM, ambulâncias do Bombeiro, pessoas amontoadas, frente do prédio isolada com aquela faixa amarela, e um homem na sacada do 4º andar de um hotel. Alguns, como nós, passaram e rumaram para suas casas; outros assistiram à cena, felizes com o espetáculo gratuito; outros ainda torceram – talvez uma estratégia – para que o infeliz se jogasse. Meu marido não acreditava na façanha, dizia ser o prédio muito baixo, afinal, quem quer se jogar atira-se do 8º andar pra cima. Como dizem, tragédia pouca é bobagem. Depois de uma semana, soubemos que ele, um candidato a suicídio, não se jogou, mas comprovou-se a suspeita. Segundo um barbeiro que presenciou a cena, alguns telespectadores berravam da rua: “Se joga, corno. Se joga!”. Isso me fez lembrar daquelas cenas de filmes em que o imperador romano levantava o dedo sinalizando a vida ou a morte de um gladiador na arena. Poucas às vezes o povo escolhia a vida. Povo que é povo gosta de desgraça alheia. Adora um espetáculo. Bom espetáculo para os desocupados de plantão presenciar a morte de alguém; bom alimento também para os invejosos e covardes que não conseguem dar cabo de suas vidas medíocres, pois lhes falta coragem, alimentam-se, no entanto, da coragem do outro. Esses vivem infelizes, mais mortos do que vivos e, por isso, gostam da desgraça alheia. Talvez eu esteja sendo cruel. Não gostaria de julgar certas pessoas, apesar de já estar fazendo isso, mas celebrar a tragédia de um outro ser humano é horrível demais. Talvez porque tive, na família, dois suicídios: dois primos depressivos que foram corajosos dando fim em suas vidas. Um deles era um garoto de 28 anos, universitário, alegre, responsável, amigo, um bom filho. Deixou a mãe em luto eterno. Esse sofrimento, essa perda não é prêmio, é penalização. É uma prisão manter-se vivo, convivendo com a morte de outro ser, imagine de um filho. Logo, o suicídio é contraditório. Não conheço nenhuma outra atitude mais paradoxal do que se matar. Quem se mata tem coragem para a morte, mas medo para a vida e quem gosta de assistir à morte, é possível que não goste de assistir à vida. Sinceramente, meus queridos amigos, apesar de a vida ter seus finais às vezes infelizes, assim como nas novelas e nos romances, bom mesmo é presenciar a felicidade, mesmo que passageira. Bom seria se essas cenas ficassem nos palcos ou nas telas de novelas, ou ainda nas páginas de um romance qualquer. Melhor seria que na arte, que imita a vida, os seres humanos só morressem velhinhos sim, por que não? Julho/2012 (Florianópolis: Editora Insular, 2014)

domingo, 20 de setembro de 2020

Sobre Marias

 



Eu e Fátima Teles fomos convidadas para uma live do "Coletivo Mulheres que Escrevem", promovida, pela amiga e escritora em comum,  Ana Laurindo. Lá, trocamos Marias. Ela leu um trecho de seu livro "Lições de Maria", já eu li um de meus poemas do livro "De Choros e Velas". Marias ficcionais juntaram-se a outras Marias e filhas de Maria. Eu, do lado de cá, do sul do país, apoiada em Anita Garibaldi  e Antonieta de Barros, ela, do lado de lá, do nordeste, abraçada a Maria Tomásia, Maria Bonita e Maria Firmina dos Reis. Trocamos endereços e livros e nos reconhecemos em uma luta mais que feminina.

Moradora de Brejo Santo, Ceará, Fátima Teles é professora, assistente social, escritora e mestranda em  Políticas Públicas. Publicou também "Alumbramento", "A Cidade que  veio das Àguas" e "Brejo Santo: Revisitando o passado e construindo o presente" e hoje possui um canal no youtube em que apresenta e lê outros escritores, além de textos de sua autoria. Ler "Lições de Maria" (Fortaleza: Premius Editora, 2019) foi um acalanto. É uma leitura leve e necessária para antes, durante e após pandemia, afinal, no país inteiro, têm-se mantidos os casos de violência contra a mulher. 

Nove Marias empoderam a Maria professora que ensina a mulher a redescobrir-se. Enxerguei-me naquela Maria que, ao despertar, encontra força, espiritualidade, sabedoria, liberdade e aprende, com o silêncio e o tempo, a desapegar, não só de objetos, mas de pessoas, afinal, "ninguém é de ninguém". No livro, há Marias que se fragmentam para se consolidarem.  E Maria torna-se sincera e ela mesma, quando consegue discernir ilusão e realidade, mentira, falsidade e verdade. Passa a viver atenta e caminha sem olhar para trás. 

Como "tudo vale a pena quando a alma não é pequena", a Maria, da Fátima, de muitos sobrenomes e que está em cada uma de nós, é a construção de uma mulher que se  empodera, que chora com Clarice, no entanto, merece viver e amar como outra qualquer do planeta.  Com uma linguagem figurada e leve,  o feminismo perpassa, diria que até disfarçado na capa dura de tom lilás, pela luta que a mulher ainda tem que travar, primeiro com ela mesma, depois com o outro. Respinga, nas entrelinhas, um "se eu fosse eu", de Clarice Lispector, um "se", no livro, que  só se descobre lendo, porque "de boas intenções o inferno está cheio", não é mesmo, Maria de Fátima Araújo Teles?


São José da Terra Firme, 20 de setembro de 2020. 



sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Eu, uma mandriona

 Realmente, eu devo ser uma pessoa muito preguiçosa, porque alguém que escolhe ser professor só pode ser muiiiiiiito preguiçoso, não é mesmo? Já ouvia que ser professor não era lá uma profissão muito valorizada, além disso, como estudante de escola e faculdade públicas, sabia que a luta era grande para se tentar valorizar o que o país pouco dava valor: a educação. Foi preguiça ler e escrever, por que não fiz algo braçal? 

Realmente, eu devo ser muito preguiçosa, porque, ainda no início da graduação, comecei a enfrentar uma sala de aula repleta de alunos. No primeiro contrato da prefeitura municipal de Florianópolis, saía do centro para dar aula na Escola Batista Pereira no Ribeirão da Ilha, logo depois, me inscrevi para professora substituta para a rede estadual. Como era jovem e com pouca experiência, só consegui aula de Inglês no Zulma Becker. Para Português havia muitos candidatos para poucas vagas.  Nem almoçava, pegava o busão da UFSC, descia na prainha, pegava outro busão para Santo Amaro da Imperatriz, quase sempre abarrotado de gente. Chegava na escola e comia um lanche que as merendeiras guardavam pra mim. Putz. Quanta preguiça! Por que não levava meu almoço?

Não parei mais, realmente, coisa de gente preguiçosa, por que não mudou de profissão? E só não foram muitas as escolas públicas, porque me efetivei cedo: Nereu Ramos, Ivo Silveira, Francisco Tolentino. Pouco fui professora "acetansa" no estado, por que só preguiçoso mesmo para se sujeitar a não ter quase direito nenhum, né? Ah! Preguiçoso e tanso. Ser professor efetivo também é sinal de preguiça, sabe como é, funcionário público que, segundo um tal ministro, é tudo parasita. E quando se filia a um sindicato então, hein! Péssima combinação!

E como todo preguiçoso gosta de trabalho manso e fácil,  paralelamente ao estado, ocupava o tempo restante na rede privada. E cá entre nós, todo professor é burro, então, precisava estudar, estudar e estudar. Fui fazer mestrado, doutorado e, detalhe, em sala de aula e grávida. Como? Ainda me perguntam? Professores não trabalham, gente, professoras muito menos. Simples assim. Por que elas não ficam em casa cuidando dos filhos e dos maridos? Bando de preguiçosas! E  essa história de preparar e fazer plano de aula, trabalhar em dois e três lugares para complementar o salário é conversa de esquerdista, sindicalista, comunista,  por que não trabalham, as mulheres, por amor à profissão? 

Realmente, sou muito preguiçosa, com três meses de férias durante esses anos todos, por que ainda não fui trabalhar, de graça pra algum político por puro patriotismo? Hoje, quem sabe,  eu seria uma assessora de um desses deputados aí que dão o sangue pelo "brazil", ou poderia, nas últimas eleições, ter me filiado a certo partido repleto de gente trabalhadeira e bem intencionada, que odeia mamadeira de piroca. Culpa de Freud e de um certo partido que governou para gente preguiçosa, tudo culpa de professor de humanas que não ensina a pescar.  

Tem que ser muito preguiçosa, tansa e burra, né? Por que diabos não dei uma de louca e me aposentei aos 33 anos com salário integral? 

Vai trabalhar, vagabunda. Lembra: nada está tão ruim que não possa piorar. 

São José da Terra Firme, 18 de setembro de 2020.